O FUTURO É CIRCULAR

Economia circular ganha corpo como modelo de negócios sustentável com a adesão de grandes companhias

Os problemas ambientais e a escassez de recursos pressionam de forma crescente o futuro sustentá-vel do planeta. O Fórum Embalagem & Sustenta-bilidade apresentou um painel de iniciativas sus-tentáveis bem-sucedidas, evento promovido pelo Instituto de Embalagens, no último dia 09 de novembro, no Espaço Nobre FIESP, em São Paulo, que reuniu 214 participantes.

E são as grandes companhias globais de bens de con-sumo que começam a influenciar de forma positiva mu-danças de hábitos e padrões de comportamento, ao ado-tar em maior escala os princípios da Economia Circular. Como afirma a Unilever em seu Plano de Sustentabilidade, que completa 10 anos: “Como uma empresa de bens de consumo, estamos conscientes das causas e consequên-cias do modelo linear “extração-transformação-descarte”. E queremos mudá-lo. Mudar o modelo linear de consumo é uma prioridade fundamental para atingir o objetivo 12 de desenvolvimento sustentável da ONU, Produção e consu-mo sustentáveis”.

Entre as represntantes da indústria de bens de consu-mo, Zita Krammer, gerente de embalagens para América Latina da Unilever, falou sobre o projeto PCR, que utiliza po-lietileno (PE) reciclado pós-consumo em grande escala, já implantado no Brasil. A resina é utilizada na produção de embalagens da linha ‘hair’ da companhia. Para implanta-ção do projeto PCR, a empresa enfrentou vários desafios, como o desenvolvimento da cadeia de reciclagem de PE para conseguir ter uma resina reciclada pós-consumo de qualidade, que não afetasse o perfume dos produtos nem as cores do portfólio, além da escassez e preço da resina.

“O Plano de Sustentabilidade da Unilever completa 10 anos, e o objetivo é dobrar o tamanho do negócio redu-zindo o impacto ambiental pela metade. Até 2025 a meta é ter 100% da embalagem de plástico reciclável”, afirma Krammer. “O PET já tem uma tecnologia PCR bem desen-volvida, porém, o polietileno ainda não tem, no entanto, com o aumento da demanda, a coleta também aumenta, e cria valor para o PE”. Segundo a executiva, até o final do ano, todas as marcas da Unilever terão embalagens com PCR. “Serão mais de 3.000 toneladas de plásticos removi-dos do meio ambiente”. Case recente, OMO líquido utilizou PCR produzido com flakes de resina obtidos a partir de re-síduos plásticos coletados nas praias brasileiras em uma ação que recolheu mais de 1,5 tonelada de plásticos que se transformaram em 18 mil embalagens de OMO líquido, reduzindo o consumo de plástico virgem. O projeto teve a parceria da Wise.

Adriana Fregoso, gerente de embalagem da L´oreal Bra-sil, apresentou a ferramenta SPOT, utilizada globalmente pela empresa, que permite mapear 100% da cadeia de va-lor, desde a compra dos insumos até a quantidade de água que o consumidor vai utilizar para consumir o produto da marca. A ferramenta é parte de um amplo programa de sustentabilidade que segue os preceitos de seu CEO, Jean-Paul Agon: “Nossa performance em sustentabilidade é tão importante quanto nosso sucesso econômico”.

Desde 2017, a empresa mapeia 2.300 produtos. Com isso, 76% de todos os produtos obtiveram melhor perfil social e ambiental. No Brasil, a empresa conseguiu redução de 71% na emissão de CO2, 68% dos novos produtos obtiveram melhor perfil so-cial e ambiental, e das embalagens, 42% melhoraram seu perfil social e ambiental. Além disso, 793 pessoas vulnerá-veis tiveram acesso ao trabalho.

A Ambev faz parte de um grupo com 400 marcas em 100 países. “Atuamos com 20.000 fornecedores na América Latina, o que certamente nos possibilita influenciar o mer-cado”, diz Erik Novaes, diretor de suprimentos e sustentabilidade da Ambev.

Ambev quer ampliar a presença das garrafas de vidro retornáveis, que podem ser reutilizadas cerca de 20 vezes

Há 3 anos, a partir de uma reflexão interna, a companhia passou a trabalhar com a missão de unir as pessoas por um mundo melhor. Novaes falou sobre o projeto 100+ que con-templa cinco frentes: agricultura sustentável, consumo de água, economia circular (embalagem circular), mudanças climáticas e fomento ao empreendedorismo. Na questão da embalagem, está atuando em 5 frentes: design para a sustentabilidade, estímulo ao uso de embalagens retorná-veis, desenvolvimento de fontes renováveis, aumento do conteúdo de reciclado e minimização do impacto de resí-duos. A empresa quer ampliar a presença das garrafas de vidro retornáveis, que podem ser reutilizadas cerca de 20 ve-zes, e está aumentado o uso de resina reciclada nas garrafas PET. “A meta é ter 100% das embalagens retornáveis ou mais de 50% com conteúdo reciclado até 2025,” disse Novaes.

Fórum Embalagem & Sustentabilidade apresenta painel de iniciativas sustentáveis bem-sucedidas

A embalagem de vidro quando descartável enfrenta desafios em sua reciclagem, devido ao peso, preço do reciclado e a logística para o transporte por grandes distâncias, até chegar às indústrias vidreiras. A Owens-Illinois apresen-tou o projeto Retorna Machine que prevê a logística reversa das embalagens de vidro. O projeto piloto foi implantado, em 2017, na sede da empresa, em São Paulo, e agora o pro-jeto já conta com mais 3 máquinas instaladas nas fábricas. “O próximo passo é colocar no varejo. A primeira máquina foi instalada no supermercado Tenda, em Guarulhos”, afir-ma Reinaldo Kühl Júnior, category leader Latam South da Owens-Illinois. “As máquinas de coleta acabam funcionan-do como incentivo para o público, ao trocar as garrafas por benefícios diretos, como bilhete para o transporte público, descontos e pontos para compras.

No varejo, a atuação do Grupo Pão de Açúcar no campo da sustentabilidade sempre teve um caráter pioneiro. “Des-de 2001, Pão de Açúcar e Unilever mantêm o maior pro-jeto de estações de reciclagem do Brasil, tendo recolhido até hoje 111 mil toneladas de resíduos, em 94 estações de reciclagem, atuando com a parceria de 35 cooperativas de catadores de materiais recicláveis”, afirmou Paulo Pompílio, diretor de relações corporativas e sustentabilidade do GPA. Criou também, entre outras iniciativas, o Programa de Reci-clagem Novo de Novo, para papel e papelão, em 2009, e a reciclagem de cápsulas de café em parceria com a Nestlé, iniciada em 2016.

O Pão de Açúcar também deu início ao movimento de redução no uso de sacolas plásticas em 2012, e desde então houve queda de 75% no seu consumo, segundo Pompílio. “Hoje o Brasil distribui sacolas plásticas em nível europeu”, afirma. “A estação de reciclagem é um ponto de coleta onde se começa a mudar o comportamento do consumi-dor. Não é solução para volume”, conclui.

Desde 2001, estações de reciclagem do Pão de Açúcar e Unilever já recolheram até hoje 111 mil toneladas de resíduos

Leonardo Lima – Mc Donald’s

Entre as grandes redes de fast food, o McDonald’s quer usar sua escala para o bem – ele atinge 70 milhões de clien-tes por dia em 120 países, o “Scale for Good. “A empresa está posicionada entre as 50 empresas com chances de mudar o mundo e ela quer usar o restaurante para ser o centro de educação, a melhor escola ao vivo do mundo, um centro de disseminação de educação para o desen-volvimento sustentável”, afirma Leonardo Lima, diretor de sustentabilidade do McDonald´s. “O canudo chamou a atenção para a contaminação plástica. Por isso, em nome do consumo consciente, deixamos de oferecer o canudo; e o entregamos apenas em caso de solicitação pelo cliente, para incentivar a reflexão pelo consumidor. Concomitante a isso desenvolvemos o projeto de reciclagem de canudos e copos plásticos para a produção de bandejas para os restaurantes.

Assunta Camilo, diretora do Instituto de Embalagens ressaltou a importância do papel da embalagem como amiga do meio ambiente. “Não há como distribuir alimen-to fresco por longas distâncias sem a embalagem e não há nada que substitua o plástico com segurança e eficiência em diversas aplicações nas embalagens, por isso é preciso reciclar o plástico e valorizar o produto reciclado, é preciso fazer a matéria-prima voltar à cadeia”, afirma.

OPORTUNIDADES QUE SURGEM COM OS DESAFIOS AMBIENTAIS

A Alemanha é um exemplo de como o que foi um gran-de desafio para o país, nos anos 60 e 70, enfrentar as ele-vadas taxas de poluição atmosférica, como a chuva ácida, os movimentos contrários à energia nuclear, a pressão do Partido Verde, transformou-se em grande oportunidade.

“Hoje a Alemanha está entre as líderes em tecnologia am-biental e em energia eólica e solar; a ameaça virou um gran-de negócio. Lá os lixões cresceram muito entre as décadas de 60 e 80, e o país começou a investir em incineração de lixo para geração de energia, mas essa solução acabou sen-do superada pela separação do lixo, que é obrigatória, e a reciclagem. Hoje a Alemanha segue os preceitos da Economia Circular”, disse em depoimento em vídeo, Michael Teschner, diretor da Multivac.

Anícia Pio, gerente do Departamento de Desenvolvi-mento Sustentável da Fiesp, enalteceu a importância da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), e como ela pode alavancar novas oportunidades de negócios, princi-palmente voltadas para as pequenas e médias empresas para que se adaptem à lei de logística reversa, que está em curso. “Os municípios com menos de 50 mil habitantes en-contram outros tipos de dificuldades, diferentes das gran-des metrópoles, e isso também cria novas oportunidades”, afirma.

Porém, segundo José Eduardo Ismael Lutti, Promotor de Justiça da Meio Ambiente, é importante que as iniciati-vas estejam alinhadas ao Acordo Setorial para implantação da Logística Reversa de Embalagens. “É preciso evitar ini-ciativas isoladas para que não haja gasto de energia e di-nheiro, e unificar os esforços, para sermos mais eficientes”, afirma Lutti.

A Klabin exemplifica sua atuação em pequenos municí-pios. Em 2012, a empresa fez seu maior investimento, o Pro-jeto Puma, com a fábrica de celulose em Ortigueira (PR), e implantou um Programa de Resíduos Sólidos em 7 muni-cípios no seu entorno, para atender a PNRS. Segundo Júlio Nogueira, gerente de meio ambiente e sustentabilidade da Klabin, foi feito um diagnóstico inicial para cada município para definir as necessidades de cada um em relação à ges-tão dos resíduos sólidos, como equipamentos, caminhões, barracões e construção de aterros.

Além da infraestrutura física, foi feito um trabalho de ca-pacitação dos cooperados. No campo da educação, houve treinamento de professores, com visitas à indústria e diver-sas atividades com os alunos, que participam de jogos, vi-sitas, concursos, projetos piloto de coleta seletiva, além de trabalhos com a comunidade. A Klabin quer estender o pro-grama para mais municípios impactados pela empresa.

No campo do desenvolvimento de novos materiais, Alexandre Cezilla, gerente executivo geral de marketing da Suzano Papel e Celulose, apresentou o papelcartão para co-pos, que é 100% biodegradável, compostável e produzido no Brasil. Trata-se da sua nova linha de copos Bluecup Bio°, que não utiliza revestimento em polietileno e sim material biodegradável.

Cooperativa de catadores, na base da PNRS

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